domingo, 3 de janeiro de 2010

Fluidez

Eu fugia. Meio vacilante pela rua escura, deserta. Fugia, numa fuga psíquico-intelectuo-metafísica. E me escondia por entre espaços vazios dos móveis velhos, nos cantos escuros da casa empoeirada. E por mais que fugisse e por mais que me escondesse, não era possível desaparecer. No canto escondido, atrás da cômoda do quarto, ficava por horas intermináveis, dias, talvez. E sequer me achavam, sequer me procuravam. Meio, assim, sem norte, eu ia por caminhos confusos, estradas líquidas. Dias desses, apareceu alguém, a fuga meio que cessou, mas logo que ela se foi a sensação de perda se tornou ainda maior. Enclausurado, agora permaneço no vazio escuro, em alguns momentos, frio. Não sei se sairei dali, por enquanto permaneço, como o tronco no meio do deserto: seco, mas que fica ali o tempo todo, não há fuga, tampouco esperança.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Questão de Tempo

O tempo! Um pouco mais de um ano é muito tempo? Não pretendo calcular com exatidão há quanto tempo não escrevo mais aqui. Mas talvez esteja na hora de voltar. Sim, nem que seja apenas para eu ler, ou para eu me ler. Porque tudo o que escrevo guarda um pouco de mim! Chega até a me assustar.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Na dança

Ele a põe de bruços como desprovido de sentimentos. Ela grita como desprovida de paixão. Aos poucos, seus corpos se entrecruzam, numa dança longe de parecer valsa. Ela o agarra, ele geme. Muito rápido para ela, exige dele o prazer. Como se obrigado, ele a embebeda. Tango perfeito. Corpos que se estranham, mas se tornam compassados. No final dormem... o gozo exige descando.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Pelo telefone

- Você já tentou meditação e yoga?
- Não só psicanálise...
- E adiantou?
- Foi legal...
- Quer assistir a um filme?
- Almodovar não...
- Por quê?
- É muito triste...
- Tá legal... e Wood Allen?
- Gostei... mas é só filme?
- Não... sacanagem também, é claro...
- Quer champagne ou vinho...
- Cerveja.
- Não tem...
- Hãaaa... você não gosta, né...
- Não..
- Posso leva sex pistols?
- Tá, mas vai ter que rolar Nirvana...
- okkkk.... teh depois..
- Tá me dispensando?
- Não é tenho que tomar banho...
- Tá legal...
- Teh depois.. diz que me ama?
- Não dá, não rola..
- tudo bem.. até depois...

domingo, 27 de janeiro de 2008

Sistemas binários

Eles queriam coisas diferentes, mas ao mesmo tempo se queriam. Pararam e pensaram cada um por si, e acharam melhor dar um fim. Já não mais se acertavam. Ambos precisavam um do outro, mas a necessidade era diferente. Ele já não agüentava mais ter que se dar prazer toda a vez que ela virava o rosto para o lado oposto ao seu, na cama. Ela já não suportava esperar sozinha, com jantar e vinhos preparados, e perceber que ele além de chegar tarde, não dera bola para a mesa e as velas acesas.
Já não tinham horários compatíveis. Ela queria aquele sarau de poesia, no domingo à tarde. Ele não dispensava a cerveja com os amigos. Ela preferia à matemática, enquanto ele se debruçava nos livros de contos contemporâneos. Ele queria pular de asa delta. Ela ficar esfregando os pés por debaixo do coberto, naquela manhã de sábado.
Eles se queriam, mas já não havia saco um para o outro. No dia do ponto final, ele suspirou e ela acenando com a cabeça concordou. Pela última vez chegaram a um consenso. Nem se lembravam mais quando isso aconteceu da última. Ele pensou: “foi naquela noite, há uns seis meses atrás, quando na praia rolou de tudo, como seria bom se fosse sempre assim”. Já ela imaginou de quando, em plena serra, comendo fondue e tomando vinho dormiram agarrados, apenas dormiram, ao calor da lareira.
Ainda bem que não falaram seus pensamentos, porque com o silêncio, acabaram felizes. Acreditando que no final chegaram a uma via comum.