segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Um dia tudo acaba, mesmo que nos momentos menos prováveis


Ele sentou-se à mesa do bar, a primeira que viu. De longe acenou para o garçom e com uma voz de poucos amigos pediu uma dose cavalar de uísque. Olhou para os lados certificando-se de que a garota por quem se apaixonara não estava olhando. Mesmo que o caso deles tivesse acabado, se ela o visse bebendo faria naquele mesmo momento largar o copo.
Refletiu sobre a vida. Não que fosse um filósofo, mas naquelas horas, depois de duas doses, qualquer anti-sentimental ateu fica capaz de recitar belas frases. Não percebeu mais a movimentação do bar. Todos já tinham ido embora, só ele permanecera. E daí! Ele se bastava. Naquela solidão inconfortável, em quem fingia ser o máximo, chamou pelo garçom.
-Me traz mais uma dose!
Esperou por tempo ninguém mais veio. Nem mesmo o garçom, a figura mais acolhedora dos bêbados de plantão. Não reclamou, não adiantaria. Virou-se e saiu pela porta. Não sem antes deixar o dinheiro da conta sobre a mesa. A rua estava movimentada para as 3h da manhã. Como um bêbado descuidado largou-me pela rua sem qualquer atenção. Não deu dois minutos morreu atropelado naquela fria madrugada triste.

sábado, 22 de dezembro de 2007

Na mochila uma vida


O barulho do fecho da mochila denuncia a partida. A bagagem aos poucos rompe o passado e sinaliza com um futuro diferente. Queria levar o quadro com as imagens dos amigos, mas já não há mais espaços para a lembrança. No trajeto novos amigos serão feitos, porém alguns deixados pelo caminho são eternos.
Sigo pra longe. O caminho? Nem eu mesmo sei. No fundo o que me guia é a loucura que me faz fugir. A poesia que traz a primavera abre um leque gigante de possibilidades de itinerários, por isso a escolha é tão difícil. A idéia mais clara por enquanto é seguir o vento, nem que para isso seja preciso recuar. Novas idéias surgem de idéias anteriores jogadas ao lixo.
A solidão da partida me causa nostalgia. A casa nunca mais será a mesma. Os movéis se empoeirarão e certamente a madeira não resistirá à fome dos cupins. O melhor tempo de uma vida que se foi, embora continue. Jogo os lençóis brancos sobre o sofá, talvez ele resista à degradação do sol. Agora já posso ir.
Na mochila só couberam os bons livros, e os CD’s de blues e rock’n roll, mas mesmo com tão pouco ela está pesada. Abandono o passado e foco no futuro. Talvez eu rache a cara. A única certeza é a de que se não tentar não saberei o resultado da experiência.
Imagem: obra "Guernica" de Pablo Picasso

domingo, 30 de setembro de 2007

Aquilo que, por enquanto, não faz sentido


Queria tomar um chimarrão caipira e desfrutar de um delicioso acarajé francês. Ouvir atabaques de umbanda na China. Não falar com conhecidos e confiar em estranhos. Andar sem destino. Tomar banho de rio no oriente médio e conhecer um astronauta no Saara.
Queria, também, correr em Moscou e dar uma passada pela cena underground de Londres. Topar com John Lenon seria até interessante. Acreditar que o mundo tem solução. Chorar de alegria e sorrir de desgosto. Sentir-me feliz com companhia e chorar sozinho. Subir nos andes e descer correndo. Ir ao Alasca e morrer de calor. Estar na Jamaica entulhado de roupas.
Na Polônia entoar lamentações familiares. Na Alemanha tomar vinho. Na Itália cerveja. Conhecer Los Angeles e se negar a fazer o mesmo com Holywood. Pedir informações do Bin Laden nos EUA. Presentear Marilyn Manson com um crucifixo. Contrariar Marx e apoiar Smith. Buscar o novo e destruir o velho. Enfim, acabar com essa obsolescência anacrônica.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

... It's only word...


“ ele olhou pra ela e disse:
-Tchau
Mas a sensação que fico não era a de desespero como antes
Era uma sensação de certeza
De que por mais que tentassem
Não se separariam”
Olheiras consomem meus olhos como o wisky o faz com fígado do escritor. Paro e recolho-me à cama, mas a insônia terrível que tanto me angustia não me permite o prazer do sono. Levanto, olho a rua vazia. Dizem que a noite deserta guarda os mais depravados segredos. Quando mais jovem, sonhava em correr à noite pela calmaria das ruas. Nunca criei coragem suficiente.
Aliás, minha coragem sempre foi tão limitada. Mas hoje não me arrependo das coisas que não fiz, mas das que fiz, e fiz mal feita. Também não foram tantas assim. Poderiam ter sido mais, mas tive preguiça. Essa mesma preguiça que agora me faz voltar à cama. Deito. Na minha frente: o teto. Por incrível que pareça, durmo. Sonhar seria pedir demais.

quinta-feira, 12 de julho de 2007

A realidade inverossímil

Toda mentira é uma verdade que deixou de acontecer? E quando a mentira não passa de uma verdade literária? O autor é um mentiroso?

Truman Capote foi um dos jornalistas que mais explorou a literatura, até mesmo revolucionando o próprio jornalismo por isso. Em A sangue frio o autor conta a história de uma família do oeste do Kansas brutalmente assassinada, em novembro de 1959. Nessa obra entrelaça os fatos a uma construção narrativa literária, onde nem sempre a tão esperada verdade jornalística dá as caras. Capote se põe de forma onipresente às ações de seus personagens. Desde a cena em que os corpos de Hebert willian Clutter, sua mulher Bonnie e seus filhos, a jovem Nancy e o solitário Kenyon, são encontrados.
Até a viagem ao México dos dois responsáveis pelos crimes, Dick Hickock e Perry Smith, e suas posteriores condenações à forca.

Publicado em quatro partes pela Revista New Yorker, A sangue frio levantou várias polêmicas no meio jornalístico. Capote foi acusado de não ser fiel aos fatos e de ter criado várias entrevista. Outra polêmica, agora com relação aos acusados, é de que o escritor mantinha relações amorosas com um dos criminosos, Perry Smith.

Embora todas as especulações, A sangue frio é sem dúvida uma obra-prima. Sua construção envolvente e descrições perspicazes, muitas vezes carregadas de ironia, não deixam incertezas sobre a primazia da obra.
O livro é uma perfeita construção literária. Onde a dose de inverossimilhança nos joga numa atmosfera imaginária e desprovida de realidade, embora A sangue frio seja baseado em fatos reais.

quarta-feira, 20 de junho de 2007

Sgt. Pepper's: 40 anos de história

A música nunca mais seria a mesma

No ano de 1967 surgia o maior álbum da discografia pop mundial. Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band nasce e decreta o amadurecimento do Rock. Característico de uma doença inflamada e psicodélica conhecida como anos 60. Sgt Pepper's completa 40 anos sem que nenhum outro álbum conseguisse desbancá-lo do posto de o melhor de todos.
Flores na capa e muitas personalidades estampadas. O disco dos Beatles, produzido por George Martin, leva além de uma mistura de rock com Erudito, lendas até hoje discutidas. Seriam as flores em honra a Paul McCartney morto em um acidente de carro e substituído por um sósia? E onde estariam os rostos de Hitler e Jesus Cristo no meio de tantas caras? Entre tais dúvidas só nos resta a certeza de que a capa demonstra bem as características de uma época: os perturbados e coloridos anos 60.
Musicalmente o oitavo disco dos Beatles só foi possível graças a um toque de ousadia. O álbum apresenta uma sonoridade muito superior à capacidade técnica da época e sua mixagem teve um grande caráter experimental. O rock com influências eruditas, proposto por Sgt. Pepper’s, representa uma fase adulta e não somente rebelde ao Rock’n roll. Sem dúvida a música não seria igual após 1967 e aos quatro garotos de Liverpool.